ENTREVISTA: BIBLIOTECA CENTRAL COMEMORA 50 ANOS

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A Biblioteca Central da Universidade Federal do Pará está comemorando 50 anos. Junto com as 33 bibliotecas universitárias que compõem o Sistema de Bibliotecas da UFPA, a BC soma um acervo de 900 mil volumes. São livros, periódicos, obras de referência, obras raras, Coleção Amazônica, fotografias, dissertações, teses e obras em Braille.

Alunos da graduação, da pós-graduação, dos ensinos fundamental e médio, servidores e professores da Instituição são os usuários mais frequentes. Mas, em tempo de avanço tecnológico, muitos usuários utilizam o contato virtual, por meio do site, blog, Twitter e Facebook. Em entrevista ao Jornal Beira do Rio, a diretora Maria das Graças Pena falou sobre os “tesouros” guardados na seção de Obras Raras, o processo de digitalização do acervo e a programação comemorativa ao cinquentenário.

Beira do Rio – O Sistema de Bibliotecas reúne 33 bibliotecas em Belém e no interior. Como vocês fazem para manter esse acervo atualizado?

Graça Pena – A atualização do acervo tem caráter permanente e é realizada a cada ano, respaldada na demanda apresentada pelas diversas faculdades, pelos institutos e de acordo com a disponibilidade de novas publicações no mercado editorial brasileiro. A avaliação e a seleção para a aquisição do acervo são condições básicas para atender a necessidade do ensino da graduação. Esse check list inclui observar a bibliografia básica recomendada para os cursos, as carências e as lacunas bibliográficas nas diversas áreas, as sugestões da comunidade acadêmica, as estatísticas de empréstimos e as consultas, entre outros aspectos. O objetivo é adquirir diversos tipos de publicações para suprir as necessidades de informação das atividades de ensino, pesquisa e extensão da UFPA.

Beira do Rio – A principal meta para 2012 será a digitalização de acervos da Biblioteca. Como está sendo esse processo? Que obras serão digitalizadas? Como será o acesso a elas?

Graça Pena – Além da produção científica e editorial da UFPA, também iremos disponibilizar o acervo obras raras que sejam de domínio público: imagens fotográficas; material manuscrito, que hoje tem acesso restrito; obras da literatura paraense e amazônica. Para isso, é necessário um suporte tecnológico. Em alguma medida, esse trabalho já foi iniciado pelo Centro da Memória, de quem nós somos parceiros. 

Beira do Rio – Essa é uma estratégia de aproximação com essa nova geração “tecnológica” que está entrando na Universidade?

Graça Pena – Para essa juventude, não há nenhum mistério acessar a informação com essas ferramentas. O que precisa é de um filtro que mostre as fontes que têm credibilidade, alerte para o que é falso, ajude a descobrir a origem daquela informação, indique onde aquele conhecimento está sendo produzido. Nós temos que explorar esse potencial. Outro dia, nós digitalizamos e enviamos para um pesquisador um capítulo do Diálogos de Platão. Isso comprova que essa demanda existe. Outro exemplo são as obras de referência – dicionários e enciclopédias. Esse material não é consultado. Eventualmente, há consulta a um dicionário técnico, algo específico. Isso acontece porque, hoje, as pessoas buscam informações no Google e não mais nos dicionários. 

Beira do Rio – Um dos grandes problemas enfrentado pelos professores atualmente é a questão do plágio e os meios digitais têm facilitado essa prática. Como incentivar os alunos a buscarem a pesquisa e não a cópia?

Graça Pena – A Biblioteca, com a sua missão de formar e informar, seguramente, as fontes de que ela disponibiliza, tem um critério de qualidade. O que nós costumamos fazer é orientar o uso dessas fontes. Mas esse papel também cabe ao professor no momento em que ele ministra o seu conhecimento ou recomenda leituras. Os bibliotecários, como mediadores da informação, também fazem essa mesma orientação. O importante é a citação da fonte. Há, inclusive, um movimento pela garantia do direito do autor, a legislação está sendo modificada…  

Beira do Rio – Entre as obras raras, o que você considera um “tesouro” que merece ser consultado pelo menos uma vez por qualquer aluno?

Graça Pena – É justamente esse acervo que nós pretendemos disponibilizar na íntegra, pois são obras de acesso restrito, compradas ou doadas para a Biblioteca Central. Hoje, temos acervos de referência em Literatura, Filosofia e História, alguns manuscritos guardados no cofre. Temos, por exemplo, um diário de viagem de Jaime Cardoso, um paraense que foi  embaixador do Brasil na Itália. Esses trabalhos nós queremos digitalizar e colocar na internet para que o mundo tenha acesso. Entre os nossos “tesouros”, estão: o manuscrito da obra do Platão, com seis cadernos, do qual Carlos Alberto Nunes fez a tradução diretamente do Grego para o Português; a Hiléia Amazônica, do escritor carioca Gastão Luis Cruls, que retrata a região sob os aspectos da fauna, flora, etnografia e arqueologia; a edição de Dom Quixote de La Mancha, do século XVII; os Álbuns da Cidade de Belém e do Estado do Pará, impressos em 1902 e 1908, com fotos históricas do Studio Fidanza. Essas obras merecem um tratamento especial.

Beira do Rio – Em dezembro passado, foi lançada a nova logomarca da Biblioteca e um selo comemorativo aos 50 anos. O que mais está previsto para as comemorações ao longo de 2012?

Graça Pena – Uma série de eventos, como palestras, encontro regional, seminário, todos temáticos na área de biblioteca digital, principalmente. Esse é o tema em discussão no momento. Costumo dizer que, hoje, a biblioteca digital é um produto desta biblioteca aqui, mas, amanhã, será o inverso. A demanda pelo livro impresso continuará existindo, é nele que o aluno estuda. Porém os periódicos, que são publicados mais rapidamente do que os livros, já estão totalmente eletrônicos. A velocidade é muito grande na área da informação e nós precisamos acompanhar esse processo. Teremos uma programação especial para o Dia do Bibliotecário e para as outras datas comemorativas. Também iremos realizar um evento com o objetivo de mobilizar e dinamizar esse movimento digital na Amazônia, o qual está muito tímido. A UFPA e o MPEG são as instituições que estão na dianteira desse processo.

Maria das Graças Pena – Diretora da Biblioteca Central da UFPA.

Matéria: Rosyane Rodrigues e Dilermando Gadelha para o Jornal Beira do Rio.