
A Inteligência Artificial (IA) generativa deixou de ser uma tecnologia distante para se tornar uma ferramenta presente no cotidiano acadêmico. Hoje, estudantes, pesquisadores e professores utilizam sistemas capazes de resumir textos, sugerir estruturas de trabalho, revisar redações e auxiliar na organização de ideias. Diante desse cenário, uma questão tornou-se inevitável: como utilizar essas ferramentas sem comprometer a integridade científica?
A resposta ganhou novos contornos com a publicação da Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq, que dedica parte de suas diretrizes ao uso responsável da Inteligência Artificial Generativa (IAG). O documento reconhece a presença dessas tecnologias na pesquisa científica, mas reforça que sua utilização deve ocorrer com transparência, responsabilidade e respeito aos princípios éticos da produção do conhecimento.
IA pode ser utilizada? Sim. Mas com responsabilidade.
Ao contrário do que algumas pessoas imaginam, a nova política não proíbe o uso de IA generativa. O que ela estabelece é que o pesquisador deve manter controle e responsabilidade sobre todo o conteúdo produzido.
Segundo as diretrizes do CNPq, quando uma ferramenta de IA generativa for utilizada em qualquer etapa da pesquisa, seja na concepção, redação, análise de dados ou submissão, seu uso deve ser declarado conforme as orientações da instituição ou do periódico científico envolvido.
Em outras palavras: a tecnologia pode auxiliar o processo, mas não pode ser invisível quando sua participação for relevante para a construção do trabalho.
A autoria continua sendo humana
Um dos pontos mais importantes da política é a determinação de que conteúdos produzidos por IA não podem ser apresentados como se fossem integralmente de autoria humana.
A norma estabelece que os autores permanecem responsáveis pelo conteúdo final do trabalho, incluindo eventuais erros, imprecisões, informações falsas ou situações de plágio geradas pela ferramenta.
Isso significa que não basta copiar uma resposta produzida por um sistema de IA e inseri-la em um artigo, monografia ou relatório. É necessário revisar criticamente o texto, verificar dados, conferir referências e garantir que o conteúdo atende aos padrões científicos exigidos.
A IA pode auxiliar na escrita. Ela não substitui a responsabilidade intelectual.
O perigo das “alucinações”
Quem já utilizou ferramentas de IA provavelmente se deparou com respostas convincentes que continham informações incorretas.
No contexto científico, esse fenômeno é especialmente preocupante. Um sistema pode inventar referências bibliográficas, atribuir citações a autores errados ou apresentar dados inexistentes com aparente segurança.
Por isso, a política reforça princípios já tradicionais da pesquisa científica, como a veracidade das informações, a honestidade intelectual e a fidelidade às fontes utilizadas.
Uma regra simples continua válida: toda informação relevante deve ser conferida na fonte original.
O que é um uso adequado da IA?
Alguns exemplos de utilização compatível com as diretrizes de integridade incluem:
- Solicitar sugestões de palavras-chave para uma pesquisa;
- Pedir auxílio na organização de tópicos de um texto;
- Revisar clareza e legibilidade de uma redação produzida pelo autor;
- Gerar perguntas de estudo para aprofundamento de um tema;
- Auxiliar na elaboração de cronogramas e planos de pesquisa.
Nessas situações, a ferramenta funciona como apoio ao processo intelectual conduzido pelo pesquisador.
O que deve ser evitado?
Por outro lado, algumas práticas representam riscos claros à integridade acadêmica:
- Entregar textos produzidos integralmente por IA sem revisão crítica;
- Utilizar referências bibliográficas sem verificar sua existência;
- Omitir o uso da ferramenta quando sua contribuição for relevante;
- Inserir dados confidenciais ou resultados inéditos em plataformas externas sem autorização;
- Apresentar conteúdo gerado automaticamente como produção exclusivamente humana.
Essas condutas podem comprometer a credibilidade do trabalho e contrariar os princípios estabelecidos pelo CNPq.
Atenção aos dados e informações sensíveis
Outro aspecto importante abordado pela política é a proteção de dados de pesquisa.
O documento destaca a necessidade de preservar informações, protocolos, códigos, bases de dados e demais materiais científicos, evitando situações que possam comprometer sua segurança ou confidencialidade.
Na prática, isso significa que nem todo material deve ser compartilhado com sistemas de IA.
Projetos ainda em andamento, entrevistas com participantes de pesquisa, dados pessoais, resultados inéditos e documentos submetidos para avaliação exigem cuidados especiais.
Antes de utilizar qualquer ferramenta, é importante verificar as políticas institucionais e as condições de uso da plataforma escolhida.
O papel da biblioteca nesse cenário
As bibliotecas universitárias sempre desempenharam papel fundamental na promoção da ética acadêmica, da competência informacional e da formação de pesquisadores críticos.
Com a expansão da IA generativa, essa missão torna-se ainda mais relevante.
Mais do que ensinar a localizar artigos ou elaborar referências, as bibliotecas ajudam a desenvolver habilidades essenciais para avaliar informações, identificar fontes confiáveis, compreender limites tecnológicos e utilizar recursos digitais de forma responsável.
A integridade científica não depende apenas de normas e regulamentos. Ela se fortalece diariamente por meio de práticas conscientes de estudo, pesquisa e produção do conhecimento.
Tecnologia e confiança devem caminhar juntas
A Inteligência Artificial generativa representa uma das transformações mais significativas da produção acadêmica nas últimas décadas. Seu potencial é inegável, mas seu uso exige discernimento.
A nova Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq reforça uma mensagem fundamental: ferramentas podem evoluir, métodos podem mudar e tecnologias podem surgir, mas a responsabilidade sobre a qualidade, a veracidade e a ética da pesquisa continuam sendo humana.
Em um ambiente científico cada vez mais digital, a confiança permanece sendo o principal patrimônio da produção do conhecimento. E, felizmente ou infelizmente para quem procura atalhos, ainda não existe inteligência artificial capaz de substituir a honestidade intelectual.



